terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Adilia Lopes relida


Primeiro amor


Gostava muito dele
mas nunca lhe disse isso
porque a minha criada tinha-me avisado
se gostar de um rapaz
nunca lhe diga que gosta dele
se diz
ele faz pouco de si para sempre
os rapazes são maus
eu não era bela
nem sabia quem tinha pintado Os pestíferos de Jaffa
resolvi  assim escrever-lhe cartas anónimas
                                                        anónimas
escrevia o rascunho num caderno pautado
não sei hoje o que escrevia
mas sei que nunca escrevi
gosto muito de ti
e depois pedia a uma rapariga muito bonita
que passasse as cartas a limpo
eu acreditava que quem tinha uns cabelos
assim loiros e a pele assim fina
devia ter uma letra muito melhor do que a minha
agora que conto
agora que conto isto
vejo que deixo muitas coisas de fora
por exemplo que o meu primeiro amor
não foi este mas o Paulo
o irmão da rapariga bonita





adília lopes
resumo
a poesia em 2009
assírio & Alvim, 2010.


Metereológica

para o José Bernardino

Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida
é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é
Verlaine

Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico

A solidão
de Adão
antes da criação
de Eva
devia ser
terrível
mas a minha
é bem pior
os homens
que escreveram
o Génesis
não pensaram
que Adão
em vez de saudar
Eva
com um grito de júbilo
a mandasse embora
com sete pedras na mão
mas eu acho
que foi
o que me aconteceu
temendo isso
Deus
não me deu
o papel de Eva
nem o de Maria
porque também
S. José
me tinha corrido
a pontapé






Conto como os contos tradicionais e com final feliz


A BELA ACORDADA


Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia era bonita, as pessoas diziam-lhe:

- Eu amo-te.

E iam com ela para a cama e para a mesa.

Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:

- Não gosto de ti.

E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.

A mulher pediu a Deus:

- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para

sempre.

Então Deus fê-la feia.

A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar

com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais

gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando

era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais

não lhe chegava.
Por isso deitou-se a um poço. No poço,

estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a

mastigar.

Logo a seguir, passou pelo poço
o criado do rei, que

pescou o peixe.

Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe,

descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a

mulher
mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o

peixe comeu a mulher
e as criadas abriram o peixe mal o peixe

foi pescado pelo criado
, a mulher não morreu e o peixe

morreu.

As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era

tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram

chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei

apaixonou-se pela mulher.

- Será uma sereia ? – perguntaram em coro as criadas ao

rei.

- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito

tortas, uma mais curta do que a outra – respondeu o rei às

criadas.


E o rei convidou a mulher para jantar.

Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à

mulher quando as criadas se foram embora:

- Eu amo-te.

Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com

uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e

comeu-a.
Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:

- Eu amo-te.

Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no

tapete de Arraiolos da casa de jantar.





In Adília Lopes – OBRA – A Bela Acordada, pag 300, Ed. Mariposa Azul, Lisboa

CACOPHONATOR




Sítios de poesia e prosa lusófonas



terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Os processos básicos de leitura nas aulas de L2


Meu:



1. A leitura como processo: conceções de "leitura

A leitura é um processo linguístico secundário, primeiro ouvimos logo falamos e para começar a ler se “relaciona lo escrito (ortografía) con unos sonidos (fonética)". Mas não é apenas uma atividade de recetiva, senão por vezes uma atividade ativa e complexa (Scipioni: 1990)


1.1 Processo cognitivo. No caso dos adultos entram muitas estratégias inconscientes, e a multicompetência linguística está a ganhar consideração teórica e prática.

1.2 Diálogo interno com um emissor ausente.


Segundo Garcia Hernández: 1990, a “característica de compendio {dos conteúdos trabalhados, da leitura}… puede contribuir a globalizar las enseñanzas aprendidas, iniciar en otras posteriores””



2. Usos da leitura: O instrumento didático

Existem básicamente duas modalidades de leitura – similares aos dois tipos de uso da língua em contexto escolar de L.E.: comunicativo vs. formal -:


Leitura extensiva. Aquela, global, autónoma, sem intervenção didático-lgtca dirigida, sem um objetivo lingüístico a priori, leitura “livre” a qual em todo o caso irá dirigida à formação cultural enteira da pessoa, como um qualquer leitor nativo da L2 que lê. Leitura mais emparentada com as “comunicative tasks”. A leitura como atividade real, facto privado.


Leitura intensiva. Aquela, parcial, fragmentária, com uma finalidade determinada. É dirigida a atividades de aprendizagem orientadas, como as “form-focused tasks”, o indivíduo como aprendente mensurável e graduável. A leitura com uma finalidade ou como método didático.


Jogo; preencher grelhas; procurar uma informação; encontrar as respostas de uma conversa; medir a velocidade;...

La motivazione iniziale è ... um pre-requisito indispensabile (Scipioni: 1990)


Brown (1989) distingue modalidades de leitura na sala de aula:


 A. Oral

 B. Silenciosa: 
                        I. Intensiva (O texto é um fim em si próprio)
                             a. linguística
                             b. de conteúdos

                       II. Extensiva (O texto é um meio para um fim)
                             a. skimming
                             b. scanning
                             c. global

I. para praticar habilidades ou estratégias específicas.

II. maneja grandes quantidades de informação. Envolve dois tipos, a leitura por prazer e a leitura profissional, esta por sua vez, pode dirigir-se a explorar (scanning) detalhes chave ou a espumar (skimming) o significado essencial.

A leitura extensiva e a intensiva podem e devem simultanear, assim como o scanning e o skimming no mesma leitura do texto.



3. Distribuição temporal de atividades:

Os processos básicos de leitura nas aulas de L2

Atividades de pré-leitura
Inferências. Vocabulário em contexto.

Atividades  durante a leitura
Scannig. Skimming. Reconehcimentos. Perguntas de compreensão. Preenchimentos.


Atividades de pós-leitura:
Associações. Construção de vocabulário. Esquemas. Transcodificação. Paráfrase. Confrontar textos. Funções comunicativas.


Etapa: Pre-leitura Etapa: Leitura Etapa: Releitura
1. Determinação do objetivo 4. Analisar segundo o propósito 7. Reflexão-inferências
2. Exploração prévia do texto 5. Ser leitor assíduo 8. Processo de releer
3. Planificação 6. Relacionar informação.
-Elaborar perguntas.
9. Lembrar-valorar a informação


Bibliografica:
http://fis.ucalgary.ca/Brian/611/readingtype.html
González MC. 2006: Expresión oral y escrita. Medellín: Udea.

Modelos de leitura



Tipos de Leitura (no âmbito da prática de ensino-aprendizagem de uma L2)


Seguindo uma estruturação tripartida de "modelos de leitura":

Tipo ascendente: (bottom-up) a compreensão segue uma linha do texto ao leitor, o processo de decodificação é linear e progressivo, fundamentado na informação visual, reconhecimento de letras, espaços, ordem, etc
(1)Modelos Ascendentes: Guia a compreensão sem experiências e expetativas do leitor, junta as letras até produzir o sentido da frase, as letras são transformadas em sons e dão origem aos métodos Sintáticos, favorecendo a decifração. Frase / Palavra / Sílaba /Letra ñ
 
Tipo descendente: (top-down) a compreensão dá-se a partir do leitor em direção ao texto. São "estruturas de conhecimento armazenadas" na mente do leitor (grafofónicas, sintáticas e semânticas) o que dá luz ao texto. O leitor reformula-as, reitera, fixa... durante o processo de leitura.
(1)Modelos Descendentes: Prevê o significado do texto e questiona sobre o texto com base no seu conhecimento. Aprende-se a ler, lendo. É uma leitura visual, na qual se reconhece as palavras sem passar pela correspondência grafo/fonológica. Estes modelos dão origem aos métodos Analíticos Globais. Contexto / Palavra / Sílaba /Letra ò
 
Tipo interativo: a compreensão dos sentidos é feita constantemente sobre a interação texto - sujeito.
(1)Modelos Interativos: São modelos em constante interação com os dois modelos anteriores. Neste modelo verifica-se claramente que a Leitura é um processo que requer a interação de muitas fontes de conhecimento. É uma fonte intermédia, Organiza a informação em função de conhecimentos prévios e dá origem aos métodos Semi-Globais ou Analítico-Sintéticos. É um modelo funcional com bons leitores, não em fases iniciais de aprendizagem da leitura.










Críticas aos Modelos Ascendentes:




Críticas aos Modelos Descendentes:





- Ausência de flexibilidade




- Predições pelo contexto




- Nem todas as letras são processadas




- Só é possível em contextos predizíveis




- O contexto influencia a leitura



- Lento

-Difícil prever palavras difíceis ou desconhecidas

Para Cassany (2006) - com a sua concepção sociocultural da leitura - tanto as estruturas prévias do sujeito como o significado das palavras têm uma origem social. Ler um texto envolve além da decodificação das palavras e da capacidade de fazer as inferências necessárias, conhecer a estruturação de cada género textual, quer dizer, como é utilizado pelo autor e pelos leitores (...)

"O letramento, entretanto, não inclui somente o que é transmitido por meio de textos escritos. Existem muitos discursos expressos oralmente, que foram planeados previamente por escrito, como é o caso da televisão, o rádio e muitas intervenções orais (por exemplo: seminários, entrevista de emprego, exposição de um projeto etc.).

Segundo Cassany (2006, p.40), a partir da perspectiva de letramento "literacía", considera-se que ao ler e escrever não só executamos regras ortográficas sobre um texto, também adotamos uma atitude concreta e um ponto de vista como autores ou leitores e utilizamos estilos de pensamento preestabelecidos para construir concepções concretas sobre a realidade. Além disso, o que escrevemos ou lemos configura a nossa identidade individual e social: como cada um se apresenta em sociedade, como é visto pelos outros, como se constrói como indivíduo dentro de um coletivo."

(1)  Portefólio MLE Helena Barreto